Os jovens não estão mais velejando?

Por Marcelo Visintainer Lopes

Instrutor de Vela

Escola de Vela Oceano

Escola de Vela Oceano – arte Kauli Lopes

Outro dia eu estava lendo uma publicação de uma revista europeia que falava sobre a diminuição do número de jovens no esporte da vela.
Uma boa parcela dos novos velejadores inicia por influência de pais velejadores.
Outra parcela inicia por influência dos amigos ou da escola e a terceira parcela vem do movimento de pais “não velejadores” que desejam que seus filhos pratiquem um esporte saudável.
A diminuição do interesse dos jovens pelo esporte é geral e não apenas na vela, está ocorrendo uma mudança de hábito.
Uma vida mais reservada ao ambiente do próprio quarto, as restrições de deslocamento e segurança e, principalmente a preguiça generalizada.
A consequência é o esvaziamento das escolas e clubes esportivos e o inevitável sedentarismo precoce.
É claro que existem exceções, a parcela mais ativa da população jovem tem buscado outros tipos de experiências, geralmente ligadas à natureza. São atividades de cunho informal onde o mote é a busca por lazer e diversão junto aos amigos.
A maioria das atividades são de curta duração e também não envolvem muitas rotinas e protocolos.
O maior desafio dos clubes e escolas esportivas é oferecer algo que desperte o interesse desta galera.
A verdade é que os esportes de competição estão perdendo espaço a cada dia.
Esta geração não é competidora.
Eles dão mais importância à cooperação do que à competição propriamente dita.
Eles estão errados?
Claro que não!
Os tempos mudaram e aquela sociedade competitiva que nos foi apresentada no passado, está deixando de existir.
Esportes que dependem diretamente da competição estão fadados a desaparecer.
A vela não se enquadra nesta sombria constatação, pois a competição é apenas uma das centenas de áreas disponíveis neste complexo estilo de vida. 

A vela em família…
Pela natureza do adolescente ele sempre se mostra resistente em participar das atividades com os pais, ainda mais em ambientes confinados e sem grandes possibilidades…
Filho: tem internet a bordo?

Pai: não tem!
Filho: então não quero ir!
Você já pensou ficar por algumas horas sem internet no barco?
É de surtar mesmo! Kkkk.
Eles precisam se manter conectados com os amigos e a simples ideia de ficar sem comunicação com o grupo já causa desconforto e ansiedade.
Até uma certa idade eles vão junto com facilidade, mas depois já querem se governar e abandonar o barco.
O fato é que cada vez mais cedo eles estão querendo ficar em casa, perto do wi-fi.
Hoje em dia não é nada comum ver os filhos velejando com os pais.
Ok, eu sei que isto é mais do que normal, mas ao mesmo tempo não é, ou pelo menos, não deveria ser.
Na minha infância e adolescência a gente fazia de tudo para estar a bordo.
Meu pai não tinha veleiro, mas eu tinha muitos veleiros de amigos à disposição.
Velejei muito com meus pais no barco da “família Ilha” em Porto Alegre e foram eles que nos introduziram na vela.
A história desta família é linda e sempre foi ligada à vela.
Crianças que crescem no ambiente náutico são diferenciadas.
Adolescentes que crescem no barco são adolescentes diferenciados.
Adolescentes que velejam com os pais tem muito mais chances de se tornarem velejadores adultos do que aqueles que se afastaram logo na infância.
Toda a linda tradição do nosso esporte depende da passagem do bastão dos mais velhos para os mais novos.

Sobre os benefícios…
Filhos criados a bordo aprendem desde cedo os principais conceitos que serão utilizados na vida adulta.
Crescem com disciplina, hierarquia e rotina.
Aprendem a respeitar a natureza, aprendem a nadar, a mergulhar e pescar.
Crescem ao lado dos pais e aprendem através dos melhores exemplos…
Obviamente um dia eles irão desembarcar e seguir seus próprios rumos!
Quem sabe não serão os pais que desembarcarão primeiro e deixarão os meninos seguirem o seu rumo como fizeram os pais do @veleiro.katoosh 
E o que dizer da @familaschurmann ?
Que coisa linda ver a trajetória daqueles meninos maravilhosos, talentosos e bem aventurados!
Quantos outros exemplos temos por aí?
O motivo da postagem de hoje é pensar em voz alta…
Pensar como os pais velejadores podem atrair seus filhos para o barco.
Regrinhas básicas para arrancar os meninos e meninas de casa:
Não tente levar seu filho a bordo sem ter nada de bacana para oferecer.
Aquele ambiente dinâmico e alegre poderá se transformar em um programa chato.
Não fique muito tempo sentado sem propor atividades ou desafios.
Desafios ao longo da velejada são o melhor caminho. Além de quebrar a rotina, deixam lembranças duradouras e estreitam a relação entre os pais.
Pescaria, recordes de velocidade, usar velas diferentes, experimentar coisas novas, ensinar nós, cronometrar quem dá o nó mais rápido, puxar os moleques no SUP ou no bote, acampar na praia, ensinar os filhos a assar um churrasco, passar o leme pra eles e deixá-los lá por bastante tempo, ensinar a trimar as velas…
Cara, não faltam atividades!
O que falta é criatividade, boa vontade e paciência!
O segredo é deixar a preguiça de lado, pois educar dá trabalho mesmo!


Bons ventos família!