Escola Oceano no Blue Planet Odyssey



Texto e imagens:  Prof.  Marcelo Visintainer Lopes

No mês de fevereiro fui convidado a participar como tripulante do time brasileiro comandado por James Belini (Blue Wind -Wind 44′) de algumas pernas do Rally de Volta ao Mundo promovido pelo velejador  Jimmy Cornell.
O convite se estendia do Caribe até a Polinésia Francesa (mais de 60 dias), mas tive que optar por uma perna curta em função da agenda da escola de vela em Florianópolis.
Acabei ficando com a perna Panamá (lado do Mar do Caribe) – Arquipélago das Ilhas Galápagos, no Pacífico.

Blue Wind

O Blue Wind que foi construído em São José dos Pinhais pela Wind Náutica, também responsável pelo Wind 34′. 
Quem assina o projeto é o argentino Nestor Volker, conhecido pelos seus barcos de cruzeiro rápido.
O veleiro é o mais novo da flotilha e também o mais bem equipado. Toda a tecnologia possível é encontrada a bordo e a maioria dos equipamentos e instrumentos são duplicados.
Sobre o Rally:
O Blue Planet Odyssey é um evento internacional de vela que tem o apoio da UNESCO, WMO e Intergovernmental Oceanographic Commission.

O velejador Jimmy Cornell além de promotor/organizador do evento é o autor das mais 
importantes referências bibliográficas sobre travessias ao redor do mundo.

Suas publicações mais importantes são:


Numeral do Blue Wind
Identificação do Blue Wind – Canal do Panamá
 Blue Wind subindo o primeiro dos 03 níveis que levam ao Lago Gatún
Ponte Centenário – fica no canal escavado chamado Corte Culebra 
Depois da ponte vem a Eclusa Pedro Miguel  (primeira comporta da descida para o Pacífico)
Eclusa Miraflores – o Pacífico está a apenas 20m de altura
 OM – o catamarã da segunda travessia do Canal do Panamá


OM – entrando na Eclusa Gatún
Mesa de navegação do Blue Wind
Os Doldrums – por Jimmy Cornell
Sobre a navegada no Pacífico:


No total navegado, motoramos apenas 12 horas, enquanto alguns veleiros motoraram por mais de 03 dias.
Escapamos bem da zona de calmaria (representação acima) e chegamos nas Galápagos no mesmo dia dos barcos que saíram quase dois dias na nossa frente.

A escolha da rota, a previsão meteorológica e o conhecimento das condições predominantes na região, neste caso a Zona de Convergência Intertropical (ITCZ), foi decisiva para diminuirmos o tempo estimado de chegada. 
A ITCZ é uma zona de calmarias severas onde predominam as altas temperaturas e baixas pressões. Pode apresentar larguras que variam entre 50 a 300 milhas

As previsões eram constantemente atualizadas pelo nosso comandante e jogadas sobre a carta náutica (software MaxSea da Furuno), possibilitando rápidas tomadas de decisão em relação ao melhor rumo a tomar.
Nem sempre o melhor rumo é direto para o objetivo e por isto fizemos um caminho um pouco mais longo, porém mais otimizado em relação à velocidade do vento.

O Blue Wind foi o veleiro mais rápido do Panamá às Galápagos, com médias superiores a 8 nós, inclusive nas 200 milhas finais onde o contra-vento predominou.

A navegada foi bem mais tranquila que o esperado. O mar não passou dos 2 metros e o vento apresentou média de 11 a 14 nós com alguns picos de 15 a 17 nós.
Estávamos em 04 (eu, Ruy, James e Aniele – sua esposa), mas dividimos os turnos em 03. Fiquei com os turnos das 19h às 21h40, das 03h às 05h40 e das 11h às 13h40, o que representava boas horas de descanso entre as horas de trabalho. 
Durante o dia permanecíamos quase todos acordados, curtindo a velejada e na noite assumíamos mais efetivamente o “trabalho”.
Meus turnos de vigia cairam bem dentro do horário das refeições mais pesadas (almoço e jantar) e por isso acabei assumindo a cozinha durante toda a travessia. O café da manhã era preparado e servido quase sempre pelo Ruy.
Dividíamos o dia nos eventos: nascer do sol, café da manhã, banho, limpeza do barco, pesca, regulagens, manutenções de rotina, consertos de algumas quebras, navegação, meteorologia, fotos, filmagens, fim de tarde, brindes, jantar e descanso. 
Passou voando e não deu nem pra perceber. Chegamos nas Galápagos rápido demais!!




Kicker Rock – Ilha San Cristóbal
Na chegada fomos inspecionados por vérios órgãos ao mesmo tempo, mas o primeiro a iniciar foi o ambiental que conferiu o fundo do barco com 03 mergulhadores a procura de qualquer espécie animal que pudesse interferir no ecossistema da ilha. Já havíamos sido avisados pela organização do evento que a inspeção seria muito rígida e que ao menor sinal de cracas, seríamos impedidos de permanecer no Arquipélago.
 Inspeção e migração
Inspeção e migração
Enquanto isto, um grupo de umas 06 pessoas permanecia a bordo fazendo perguntas, preenchendo formulários e querendo abrir tudo o que tinha acesso, como armários, compartimento do motor, paióis, etc.
Depois da inspeção, a recepção…
Tudo ok com o Blue Wind! Desembarque e permanência liberados… Agora é só curtir!
Dos 20 dias embarcado, 04 foram dedicados a duas travessias do Canal do Panamá (uma no Blue Wind e a outra no catamarã “OM” da Nova Zelândia) e mais 4,5 dias na travessia do Golfo do Panamá à Ilha de San Cristobal – Galápagos (900 milhas).

Os 11 dias restantes foram dedicados a abastecimentos, manutenções, revisões de rotina, planejamento e alguns tours, assim divididos:

– 02 dias na Baía de Colón (Marina Shelter Bay ), local de encontro das tripulações de volta ao mundo antes de ingressarem no Canal do Panamá;
– 02 dias na Cidade do Panamá;
– 07 dias no Arquipélago de Galápagos (06 dias na Ilha de San Cristóbal e 24 horas na Ilha de Santa Cruz, com passagem pela Ilha de Santa Fé e Baltra (onde fica um dos aeroportos do arquipélago e de onde partia o meu vôo para Guayaquil).

Sobre a experiência:
A experiência de ter navegado no Pacífico até as Galápagos e de ter cruzado o Canal do Panamá duas vezes foi incrível, principalmente por ter convivido com tripulações de diferentes nacionalidades e culturas.
O que mais me marcou e o que foi mais gratificante foi o “espírito marinheiro” de todas as tripulações. Quando estávamos parados em alguma marina, as pessoas deixavam de lado o que estavam fazendo para ajudar a resolver os problemas dos outros.  
Você está sozinho e ao mesmo tempo rodeado de gente que mal te conhece e que quer te ajudar.
As pessoas se respeitam, respeitam o mar e a natureza e isto tudo produz um fluxo enorme de boa vontade, gentileza e pronto atendimento.
Tudo isto faz da vela um esporte muito especial e que eu amo demais! E a cada dia mais…
Foi bom ter dividido um pouco destas milhas com vocês!
Bons ventos a todos!
Marcelo Visintainer Lopes
Imbituba, 10 de março de 2015