Matéria publicada em 30/06/25 no site Yachtingworld.com
Síntese e comentários: Marcelo Visintainer Lopes – Escola de Vela Oceano
Ler os relatos da frota ARC foi como entrar numa sala repleta de capitães contando o que deu certo e o que deu errado nas experiências sobre energia a bordo.
O Atlantic Rally for Cruisers foi criado em 1986 por Jimmy Cornell (World Cruising Routes). Ele também é o idealizador do rali de volta ao mundo Blue Planet Odyssey, o qual tive a oportunidade de velejar na perna Panamá – Galápagos em 2015. O evento de Cornell ainda me proporcionou duas incríveis passagens pelo Canal do Panamá.
O tema principal da matéria é sobre monitoramento de baterias e geração de energia e o que dá para perceber inicialmente é a forte tendência da flotilha ARC em direção aos bancos de bateria de lítio.
A turma que migrou para lítio não se arrependeu e quem não migrou, continuou com limitações de autonomia e conforto a bordo.
A migração não é barata, mas compensa cada centavo investido.
A possibilidade de usar 80% da capacidade, a recarga rápida e a redução de peso melhoram muito a vida do banco de serviço. Isto significa mais autonomia com menos tempo de gerador ou motor ligado.
Por outro lado, para dar a partida no motor, a velha bateria de chumbo continua dando conta do recado e por um custo bem menor. A bateria de partida precisa fornecer uma grande quantidade de energia em um curto período, seguido de tempo para se recuperar.
Quatro em cada dez capitães trocaram ou atualizaram as baterias desde que compraram seus barcos e a maioria migrou para lítio. Vários relatam satisfação com notas entre 4,0 e 5,0 de uma escala de 0,0 a 5,0 e pouquíssimas reclamações foram ouvidas. A insatisfação de deu muito mais em relação aos periféricos mal integrados (monitores, BMS etc.) do que em relação às baterias.
Alguns relatos:
“É como comprar um barco novo em termos de usabilidade.” — Anders Fredholm.
“Troquei o gás por elétrico; acabou a novela do reabastecimento.” — Lloyd Smith.
“Foi a melhor mudança que já fiz no barco.” — Wilhelm Klass.
O fato a que não estamos acostumados na hora de trocar as baterias é o de termos que chamar um especialista para fazer isto. Baterias comuns são trocadas pelo próprio capitão, enquanto as de lítio necessitam de uma base técnica mais robusta.
O lítio poderá realmente ser fantástico quando instalado como sistema principal, desde que não falte um bom projeto, um bom dimensionamento dos cabos, proteção contra sobrecarga e um BMS confiável.
As instalações caseiras e sem acompanhamento profissional costumam sair caro, principalmente em relação às coberturas de seguro. Se for migrar, faça com ajuda de um profissional que já tenha realizado a instalação de vários sistemas similares. Peça referências e converse com os clientes que estão utilizando o sistema.
Sobre o BMS
O BMS (Battery Management System) é o “cérebro” de um banco de baterias de lítio. Ele tem a função de proteger, monitorar e otimizar o funcionamento do sistema, garantindo segurança, desempenho e vida útil das células.
Além de cortar a carga ou a descarga em caso de sobretensão ou subtensão em uma célula ele desarma em caso de sobrecorrente ou curto-circuito e controla a corrente de carga/descarga de acordo com limites seguros.
Também monitora a temperatura das células e interrompe o sistema se houver risco de superaquecimento ou congelamento e mantém todas as células em estado de carga semelhante, aumentando a capacidade útil e a longevidade do banco de baterias.
O BMS não é um sistema opcional e sim essencial, pois sem ele, o risco de incêndio, explosão ou perda prematura da bateria é muito alto.
Antes de dobrar a amperagem do banco de baterias, dobre a inteligência do sistema. Monitore tensão, corrente, estado de carga e histórico. Isto evitará a paranoia com a geladeira, com o dessalinizador e também com o novo vilão do consumo: a Starlink.
De onde vem a energia dos barcos ARC?
A maioria mistura fontes. Mesmo quem tem gerador a diesel costuma utilizar solar, hidroeeólica.
Entre os que tem gerador e renováveis, a preferência pendeu para as renováveis, com muitos elogios para os hidrogeradores(entrega24 horas por dia/7 dias da semana).
Superdimensionar todos os sistemas (principalmente o hidrogerador) e ter redundância parece ser uma solução sensata.
Pequenas conclusões:
– Conforto e segurança andam juntos quando pensamos o barco como um grande ecossistema: baterias certas, monitoramento confiável e múltiplas fontes de energia alternativa (renováveis/fóssil).
– Lítio é sensacional, mas cuidado com o amadorismo. O segredo está no projeto e na instalação profissional.
– Mesmo que você decida ficar com as baterias tradicionais, substituí-las antes de iniciar a travessia pode ser uma boa dica para evitar aborrecimentos.
– Mais mar, mais consumo e mais recarga: as ondas fazem o piloto trabalhar mais – planeje horas extras de carga.
– Mais tripulante, mais consumo – ajuste os hábitos.
– Mais sombra das velas nos painéis, menos energia solar: repense o posicionamento dos painéis em relação ao sol e utilize painéis flexíveis móveis como recurso extra.
– Freezer: desligar à noite e não abrir a tampa até o dia seguinte ajuda a equilibrar o balanço.
– Starlink: otimizar o uso. Ligar só quando for utilizar.
– Dessalinizador: combinar a produção de água com o carregamento do banco de baterias pelo gerador/motor.
– Fogão elétrico: combinar o preparo de refeições com o mesmo raciocínio acima.
E para finalizar lembre-se:
No mar, energia é autonomia. Escolha suas baterias com sabedoria, planeje com inteligência e navegue com conforto e segurança.
Bons ventos!