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segunda-feira, 1 de julho de 2013

Rio Grande - Porto Alegre. Travessias 2013

 
Rio Grande.  Sexta-feira, 28 de junho.

Por Marcelo Lopes

Tudo pronto para seguirmos para a última etapa de travessias do 1º semestre. O Oceano VI retornará a Porto Alegre  depois de 40 dias fora.
Eu, João e Neiva embarcamos no ônibus das 10h e chegamos em Rio Grande às 15h. Cristine e Anselmo saíram mais tarde de POA e chegaram jantados.
Pernoitamos a bordo com raios, trovões e pancadas de chuva. A previsão não errou! Para o sábado e domingo estava previsto tempo bom e vento forte.
Na sexta-feira havia uma movimentação nos trapiches do clube, pois mais dois barcos estavam se aprontando para partir, sendo um com destino a Floripa, com o Jorge Alderete no comando e o outro para Porto Alegre, com o Francesco Colombo e tripulação.
Nossos horários de saída eram parecidos – entre 06h a 07h da manhã.
Acordei às 05h30 e liguei o motor. O dia amanheceu nublado, sem chuva e sem vento. A previsão era de SW a W a partir das 9h. Enquanto o pessoal se ajeitava lá dentro, retirei as defensas e desamarrei todas as minhas espias. A condição era boa para fazer o início da  Feitoria e como havia previsão de vento forte para as primeiras horas, queria adiantar algumas milhas para ficar o mais próximo de Pelotas possível.
Deixamos o clube às 06h10 e ainda era noite fechada. Lá fora, atracado no trapiche do clube, estava o Oceanics, do amigo Francesco. Passei ao lado do barco e dei um grito! Não havia movimento e pareciam estar dormindo. Acho que meu grito deve ter acordado a galera!
Devagar e a motor, percorremos todo o Porto Velho. Por enquanto nada de café da manhã... Esperei um pouco mais para prepará-lo. Era importante deixar o barco em um rumo mais fácil e seguro para o pessoal tocar o leme.
O frio estava parecido com o do final de semana anterior quando fomos para o mar. O café ficou pronto quando estávamos ao lado do navio plaforma 58. Suco, iogurte, café com leite, café preto, capuccino, pão preto, frios... Um bom café para começar bem o dia. Na geladeira estavam prontos os sanduíches do dia, além das frutas, biscoitos e petiscos.
Subi para assumir o leme enquanto eles tomavam o café. Em seguida o dia começou a clarear e pudemos visualizar melhor as estacas próximas e dentro do canal.
Às 07h30, no través das barcas de São José, o SW entrou com 08 nós. Não era vento suficiente para nos empurrar, ainda mais com a correntada que corria para o mar.
Seguimos no motor, com o grande para cima por mais uma hora quando o vento ganhou mais força. Abrimos a genoa e velejamos. Logo em frente, a mais ou menos uma milha, havia um veleiro no mesmo rumo que nós. Eu não imaginava quem poderia ser. Não vimos ninguém entrando pela barra e nem saindo do clube antes de nós. Mais tarde descobri que se tratava do Oceanics. Eles atalharam pela dragagem nova. Como eu não sabia se a obra estava pronta, não quis arriscar. Acordaram depois da gente e pularam na frente... Sorte a nossa!
Melhor... Impossível!
Ter um barco apontando os rumos dentro do Canal da Feitoria é puro luxo!  Só um GPS portátil e o ecobatímetro deram conta do serviço e assim mesmo só para algumas conferências.
Na chegada a Pelotas disputamos uma curva de canal com um navio de uns 250 metros. O vento estava forte e o navio produzia uma onda de mais de um metro e meio. Entre ele e a bóia tinha um espaço de não mais do que 50 metros. A condição ali era de BB com BB. Ficaríamos por sotavento do navio e por isso liguei o motor para passar com segurança pelas ondas e pelo buraco de vento que se forma no costado. Falei para o pessoal pegar as máquinas fotográficas para registrar a passagem pelas ondas. É sempre uma adrenalina bacana! Eu também peguei a minha, mas só consegui fazer uma imagem mais longe. A bateria acabou! O Oceanics estava mais à frente e não disputou a curva com o navio como nós. Espero que tenham feito algumas imagens da nossa passagem pelas ondas.
O vento esperado de W só entrou às 09h30 quando estávamos próximos do São Gonçalo.  Sabia que ele viria forte e por isso o grande já vinha rizado desde Rio Grande. Entrou com 16-18 nós e logo subiu para 22- 25. As ondas tomaram forma e tamanho rapidinho. 
A manhã passou voando e o canal também.  Deixamos a Feitoria por volta das 12h30 já com o sol funcionando bem. Tínhamos 25 milhas até o Vitoriano, algo em torno de 04 horas de velejada.
Neste intervalo preparei alguns petiscos no forno (lingüiças e iscas de frango) com pão preto e uma pasta de azeitonas para acompanhar.
Com o vento e as ondas favoráveis tudo fica mais fácil! Apenas os timoneiros tinham um pouco mais de trabalho para manter o rumo. É nesta hora a sensibilidade e a antecipação nas correções é bastante importante.
Neiva e Cristine conduziam com destreza o Wind 34’. É fantástico ver uma mulher ao leme em um dia de ondas maiores. Neiva só havia timoneado uma vez o veleiro escola na travessia que fizemos para Tapes em 2012 e naquele dia não havia ondas. Ela é esposa do João e nunca fez curso de vela. A Cristine havia timoneado algumas vezes durante as aulas que fez em um Ranger 22 e ainda não tinha timoneado um barco com roda de leme. A segurança , o nível de concentração e a firmeza nas correções foram excepcionais.
Revezamos o leme com trocas variando entre uma hora e uma hora e meia, sem muito compromisso. Todos permaneceram acordados a maior parte do dia, com alguns pequenos cochilos. Iríamos pernoitar no Cristovão Pereira e não precisávamos nos preocupar em dormir fora dos turnos de leme.
Do Vitoriano até o Cristovão Pereira são 33 milhas e a previsão de chegada era às 22h30.
As ondas e o vento diminuiram com o passar das horas, mas mesmo assim a lagoa ainda estava batida.  
Motoramos até lá dentro da enseada, junto ao farol e fundeamos... A noite estava gelada bastante estrelada. Pena que não pudemos aproveitar mais tempo lá fora... A temperatura havia caído bruscamente! Lá dentro, no quentinho do fogão ligado, fiz um estrogo de frango e o João abriu um “tinto” para comemorarmos... Antes da meia noite já estávamos no sono profundo! Lá fora tudo parado. Sem ondas e com o vento tocando aquela sinfonia sonífera.
Despertador para às 05h30. Deixei-os descansando mais alguns minutos e fui lá pra fora dar a partida no motor. Levantei a vela grande ainda aproado pela âncora e depois a suspendi. Ainda era noite fechada.
Saímos a motor com vento e ondas de SW. O barco balançava bastante com as ondas pela alheta de BB. O dia começou a clarear e ainda conseguimos avistar o farol que deixamos para trás. Branco, lindo, imponente Farol Cristovão Pereira. Infelizmente apagado, assim como a bóia que marca o seu banco e outros sinais luminosos importantes da Lagoa.
Pela frente, 40 milhas até o Farol de Itapuã. Rmg 015, safando o banco de São Simão e passando pelo meio dos dois naufrágios no través do Pontal de Tapes.
Velejávamos com o grande todo pra cima e a genoa toda aberta. O vento não era suficiente para mantermos médias acima de 6 nós. Tentei por diversas vezes tirar o motor, mas a velocidade caia para menos de 4 nós. Como eu assumira o compromisso de chegar no clube até às 18h não pude abrir mão do auxílio do “vento de porão”.
E assim seguimos até Itapuã...
Um pouco antes da chegada no canal de acesso à barra do Guaíba coloquei fogo no carvão. Preparei o churrasco para ficar pronto perto do Farol de Itapuã e com isto conseguimos chegar à Praia do Sítio para o almoço. Assado de tiras de ripa e espetinhos de frango...
Levantamos âncora em seguida do almoço e partimos para a reta final da viagem. De Itapuã a Porto Alegre são aproximadamente 23 milhas e dá pra fazer em 4 horas mantendo a média de 6 nós. A calmaria dominou da Ilha do Junco até o través de Belém Novo.  Entrou uma brisa de SW, mas não tinha força suficiente para manter a média esperada. Seguimos motorando até  às 17h20, quando finalmente atracamos no Jangadeiros.

Navegamos 150 milhas desde Rio Grande com o tempo total de 36 horas. Destas 36 horas permanecemos parados por 07 horas (06h de pernoite + 01h de almoço).

Agora é preparar o barco para o início do 2º semestre. Vou tirá-lo da água para as revisões de quilha, leme e pintura de fundo, trocar o óleo, filtros e correias, substituir uma lâmpada do mastro que quebrou e era isso. Em menos de uma semana o barco estará na água novamente!

Agradeço aos tripulantes João, Neiva, Cristine e Anselmo pela parceria e pela coragem de enfrentar o desconhecido.


Obrigado a você que nos acompanhou até aqui em nossas velejadas pela Lagoa dos Patos.