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instrutor: Capitão Marcelo Visintainer Lopes
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terça-feira, 18 de junho de 2013

Diário de Bordo - Travessia Tapes - Rio Grande

Relato da viagem de Tapes a Rio Grande a bordo do veleiro Oceano VI realizada nos dias 14 e 15 de junho de 2013.

Previsão do tempo :
A maioria dos sites indicava  vento S com mais de 20 nós para a sexta, dia da saída.
A virada para SE estava prevista para após às 00h do sábado, passando para E no decorrer do dia.

Eu e o Kauli chegamos a Tapes na sexta-feira às 10h para adiantar os abastecimentos e revisões. Os outros tripulantes (Leonardo, Rodrigo e Roberto) chegariam às 14h30.
O horário previsto para a saída era ás 17h30 e depois da chegada do outros tripulantes continuamos os preparativos. Roberto e Rodrigo prepararam os sanduíches enquanto eu fazia o jantar. O vento estava forte e lá fora as ondas ultrapassariam 1,5 metros com facilidade. O mais sensato era cozinhar enquanto tudo estava calmo.
Depois da preparação da comida iniciamos o plano de navegação. Sempre tenho meus planos prontos, mas faço questão de que todos os tripulantes  pratiquem e se apropriem de tudo antes da saída. Mais tarde, se perguntado, todo mundo sabe de cabeça o rumo, as distâncias e os tempos médios das pernas.
Tudo ok. Vamos partir. São 17h30 em ponto. Aproveitemos a luz para passar pelo canalete do clube. Sem ela a situação se complica, pois as laterais são rasas e encalhar na saída não é nada auspicioso...
O vento sul começou calmo por volta do meio-dia, confirmando a previsão. Com ele veio um cinza escuro de chuva. Parecia chover nas cidades do entorno, mas nenhum pingo caiu em Tapes.
Perto das 15h as rajadas já chegavam a 18 nós e a temperatura despencava rapidamente. Pedi para que todos deixassem à mão seus equipamentos de frio e água (casacos e calças impermeáveis, luvas e gorros), já que a navegada seria longa, fria e desgastante...
Saimos a motor e fomos com ele até lá fora com ondas que passavam de 1 metro com séries maiores..
A noite caiu rapidamente. Velejávamos com a vela grande rizada na primeira forra e com a genoa toda aberta. Tínhamos mais de 20 milhas de contra-vento pela frente até o farolete dos  Desertores e dos Desertores para frente, pelo menos 15 milhas até Dona Maria, ainda de contra-vento.
A condição estava realmente dura. As ondas da série já alcançavam 2 metros e a tocada no contra-vento estava muito técnica. O barco não terminava de sair da onda e já vinha outra quebrando em cima. Parecia pequeno o 34’ para aquela condição. Já havia pegado mares bem maiores com outro Wind 34’ em Salvador, mas nas vagas grandes a velejada acaba sendo muito mais suave.
O vento de 25 nós chegava aos 30 nas rajadas e com isso a sensação térmica permanecia constante, perto do zero graus (temperatura ambiente de 10 graus x 25 nós de vento).
Próximo das 22h já havia altura para cambar e passar pelo Desertores, mas em virtude da dureza do contra-vento e do frio resolvi refletir...
Meu plano inicial era velejar toda a noite para chegar ao Canal da Feitoria antes do meio-dia. O canal é feito somente de dia e do seu início até Rio Grande são pelo menos 06 horas (se você fizer tudo certo e não encalhar).
Estávamos a menos de 2 horas de um bom abrigo de Sul e talvez fosse uma boa darmos uma parada para o  reaquecimento do corpo.
Foi então que rumamos para o Cristovão Pereira, um antigo farol com 127 anos de idade e 28 metros de altura. A sua enseada oferece abrigo de SW a E.
Baixamos as velas e motoramos até a enseada. Âncora, capuccino e cama! Fiz umas contas rápidas antes de deitar e concluí que tínhamos não mais de 3 horas de descanso (por causa da distância até a Feitoria – 60 milhas).
Despertador para às 3h da madrugada.
3 horas mais tarde soa o despertador!
Maravilha de descanso. Pareceu uma noite inteira de sono.
Mal tocou o despertador e eu pulei lá pra fora direto no motor. Levantei o ferro com todos ainda lá em baixo e tratei de acelerar.  Não tínhamos tempo a perder. Um atraso na entrada da Feitoria pode significar um erro estratégico enorme. Os navios costumam ficar ali em volta da bóia de acesso do canal esperando amanhecer para seguir viagem. Com cerração, ninguém vai! Para um navio é fácil ficar no meio do nada, sem proteção de vento e ondas, mas para um veleiro de médio porte não é bem assim.
O plano C, se desse algo errado no horário de chegada, era entrar em Pelotas para o pernoite e sair no domingo cedo.
Contornamos a bóia do banco em frente ao Farol Cristovão Pereira a motor e seguimos com ele por mais algumas milhas tentando ganhar altura para diminuir o número de cambadas até Dona Maria, 11 milhas ao sul. O vento cedeu e quase parou e por isso tivemos que permanecer no motor por mais umas duas horas. O céu estava completamente limpo e as estrelas ditavam o rumo, com Dona Maria no Rmg 215.
Por volta das 5h o vento SE entrou com uns 12 nós e desligamos o motor. Uma velejada clássica, porém gelada. Começamos os mini-turnos quando saímos do Cristovão. Se fosse numa travessia normal ninguém dormiria de vontade de ficar acordado para curtir, mas com o frio que estava era importante que cada um, em seu respectivo turno estivesse zerado e aquecido. Qualquer vacilo na navegação por causa de sono pode custar caro na lagoa.
O dia amanheceu nublado junto ao horizonte e o sol demorou em aquecer. A esta altura estávamos próximos do banco do Vitoriano e aos poucos o vento foi diminuindo. Ligamos novamente o motor para auxiliar as velas e para manter uma média de pelo menos 6,5 nós.
Com esta velocidade chegaríamos à Feitoria (25 milhas depois) por volta das 13h e tudo ocorreria como planejado inicialmente.
Conforme o sol subia, mais clara a água ia se tornando, até estacionar num  lindo tom  verde claro.
E com o sol veio o descongelamento gradual de nossos corpos... Sem exagero nenhum!
A manhã passou voando. Nos  entretemos muito com a aproximação de alguns navios saindo e entrando da Feitoria e também com o fogo que eu havia colocado no carvão.
A Feitoria não é o melhor local do mundo para se assar uma carne, mas depois daquela noite  gelada achei que os tripulantes mereciam um assado para renovar o espírito.
Um olho na carne e o outro no eco e no GPS. Toda a atenção a partir de agora é pouca. As bóias e demais marcas do canal se confundem facilmente com as estacas cravados pelos pescadores. Eles batem suas estacas na margem do canal e às vezes dentro dele. Muitas colisões com estacas já ocorreram nesta região e por isso não podemos dar mole.
Tínhamos 03 GPSs ligados (dois com cartas da Garmin e um com carta Navionics), mais o ecobatímetro.
A carta náutica de papel estava junto de nós no cock-pit e volta e meia era consultada. Os erros das cartas da Navionics e da Garmin existem e não são pequenos na Feitoria.
Muitas vezes as cartas diziam que estávamos completamente fora do canal e na verdade (no visual), não estávamos. Por muitos momentos, o erro de cada uma das cartas era diferente e por isso o eco e os alinhamentos acabaram nos ajudando bastante.
Com as velas em cima e calçados no motor, cruzamos a entrada do Canal São Gonçalo em Pelotas por volta das 16h. Ainda havia umas duas horas de luz pela frente, tempo “quase” suficiente para chegarmos a São José do Norte.
A aproximação noturna de São José é bastante delicada e deve ser feita em baixa velocidade. Diversas estacas estão espalhadas dentro do canal . A própria carta de navegação coloca os avisos de precaução na região.
A noite caiu e como as estacas estariam mais a boreste decidi enrolar a genoa para facilitar a visualização (amuras a bombordo).
Ali estavam elas novamente, com mais de 2 metros acima do nível da lagoa e em grande número. Cruzamos com dois navios bem perto das estacas. Deixamos o primeiro por bombordo e o segundo por boreste, a fim de garantir a segurança.
Rio Grande estava logo à frente e a boreste. Só faltava contornar o canal e rumar para cima do porto. Passamos pelo gigante navio plataforma Petrobras 58 (em construção) e batemos algumas fotos do monstro.
A esta altura o relógio marcava 19h e dali até o Iate Clube de Rio Grande ainda tínhamos mais  3 milhas a motor.
Em baixa velocidade e com a sensação de dever cumprido, chegamos ao clubei às 20h, exatamente 26 horas e meia depois da saída de Tapes.
Depois de atracar o barco, demos uma ajeitada em tudo e saímos para jantar. Afinal era noite de sábado e tínhamos muito a comemorar...
Na sexta-feira estaremos aqui novamente para mais um trecho da “Missão Travessias na Lagoa dos Patos”. Desta vez vamos ao mar. Sairemos pela Barra de Rio Grande e velejaremos lá fora durante todo o dia de sábado. Entraremos para dormir dentro da barra e no domingo mais uma velejada lá fora. Sucesso pra todos nós!

Agradecimentos especiais e parabéns pela bravura:
Leonardo, Kauli, Roberto e Rodrigo.

Porto Alegre, 18 de junho de 2013

Professor Marcelo Lopes