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Prof. Marcelo Visintainer Lopes
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terça-feira, 25 de junho de 2013

Batismo de Mar - Travessias 2013

Relato da velejada em Rio Grande/RS 

Sexta-feira, 21 de junho de 2013.

Por Marcelo Lopes

Eu, Rodrigo e Roberto saímos de Porto Alegre às 10h15. Combinei com o Gerson Hass de encontrá-lo em Eldorado do Sul. Luciano e Roberta nos encontrariam em Rio Grande no final da tarde.
Chegamos ao Iate Clube de Rio Grande às 16h depois de 5 horas de viagem. Chovia forte de sul e fazia frioooo...
Quando Luciano e Roberta chegaram ainda chovia muito e tiveram que esperar a chuva acalmar para tirar as mochilas do carro. Ficamos dentro do barco esperando até às 21h, quando São Pedro deu uma folga (graças à rondada para SW que derrubou a temperatura). Depois disto conseguimos agilizar algumas coisas na rua.  
Enquanto esperávamos, preparei o jantar e a pessoal cuidou dos sanduíches para o dia seguinte. Fora da barra, com o mar do tamanho que estava previsto, sanduíches e frutas segurariam bem os estômagos.
Ouvimos duas vezes a “Chamada Geral” indicando MAR GROSSO/MUITO GROSSO com ondas de S/SW de 3,5 a 5 metros e ventos SW a W 6/7 com rajadas (22 a 33 nós) na área Alfa (do Arroio Chuí até o cabo de Santa Marta).
Esta condição pode parecer meio sinistra, mas aqui no sul é bem normal. O mais importante nesta hora é a confiança no barco. Conheço bem os processos construtivos e confio plenamente em cada detalhe da montagem do Wind 34’.
Fomos dormir antes da meia noite. O vento assobiou forte a noite toda causando uma banda de 10 graus para boreste.
Acordamos às 6h, tomamos café, preparamos tudo dentro e fora do barco, vestimos as roupas de tempo e saímos.  Hora de saída: 8h15.
O dia amanheceu lindo e gelado. O vento WSW cortava o rosto e a sensação térmica era de 0,8 graus.
Velejamos por duas horas até a chegada nos molhes. No caminho realizei uma conversa com a tripulação sobre a experiência que teriam e como seria importante a velejada ser prazerosa para todos. Não havia um compromisso formal de X horas de mar e nem tão pouco a obrigação de passarmos trabalho lá fora.  O número de horas que permaneceríamos navegando naquele mar só dependeria deles!
Minha proposta  de “Batismo de Mar” em primeiro lugar é lúdica e depois, técnica. Não se trata de um curso avançado de mar e sim de um batismo e, neste caso, procuro evitar ao máximo as sensações de desconforto .
Sempre que velejo com tripulações pergunto como todos estão se sentindo em relação ao vento e às ondas. Pergunto se não estão indispostos, etc. Faço algumas recomendações básicas em relação à importância da alimentação e falo também sobre o que devem ou não fazer a bordo, enfim... Preparo seus espíritos e tento adequar seus organismos a um menor impacto possível. Cada pessoa tem um comportamento diferente em relação ao balanço. O conflito entre as informações enviadas pelo labirinto e pelos olhos ao cérebro pode ser mais determinante em uma pessoa do que em outra.
Quem decide mudar de vida e “viver a bordo” deve aprender a lidar com diversos fatores e sensações ao mesmo tempo. Convivemos com muitas variáveis e saber lidar com elas com tranqüilidade e segurança é sempre muito importante.
Quando se navega com uma tripulação, a gestão de pessoas se torna mais vital do que muitas outras coisas.
De nada adianta ser um expert na vela  e um péssimo gestor de pessoas. Ninguém vai agüentar velejar com você por muito tempo e você não terá condições emocionais de administrar a saúde física e mental da sua tripulação.
Às vezes me perguntam o que é necessário aprender para poder iniciar uma velejada na costa brasileira?
Respondo: a primeira coisa é aprender a velejar e descobrir se existe algum talento e paixão pela navegação. Cursos de vela oceânica são ótimos, mas indico a experiência nos monotipos como complemento para apurar a técnica. É o caminho que faz mais sentido, mas nem sempre a pessoa quer se molhar, virar barco, passar frio, entrar em águas poluídas, etc. Poderá até se escapar no começo e iniciar direto no oceano, mas não vai se escapar mais tarde, quando a hora chegar de verdade. Se não o fizer não será o fim do mundo, mas sempre é uma experiência a mais!
Mais tarde: adquirir um barco preparado para as águas que você deseja navegar, aprender a confiar nele em condições acima dos 40 nós, sair para o mar diversas vezes com condições diversas de tempo e vento, adquirir conhecimentos de elétrica, hidráulica, mecânica de motor, primeiros socorros, homem ao mar, reboque, combate a incêndio, sobrevivência no mar, fibra, costura de velas, marinharia, carpintaria, meteorologia, navegação eletrônica, navegação estimada, navegação astronômica, etc, etc, etc, etc, etc...
Voltemos para a Barra de Rio Grande! O desvio de rota foi grande...
Tudo combinado então! Tem que ser prazeroso pra todo mundo ok?
O mar está bem próximo e as ondulações de SW já começavam a mostrar força dentro do canal. Na saída muitos golfinhos acompanharam o barco dando as boas-vindas.
Vela grande rizada na segunda forra e a genoa enrolada em 1/3.
Cruzamos o farol às 10h15 e a partir dali foi só emoção. As ondas e o vento estavam exatamente como a previsão indicava.
Velejamos de contra-vento por quase 20 milhas no rumo magnético 180. Vento acima dos 25 nós e médias de velocidade superiores a 7,5 nós, excelente para aquelas condições.
Tentávamos ganhar altura para garantir um retorno tranqüilo e sem cambadas. Errar a entrada do canal com aquelas condições poderia nos custar caro.
O vento forte e as ondas grandes e picadas, proporcionavam subidas e descidas radicais, mas ao mesmo tempo silenciosas. O barco não batia nada! Muito redondo e bastante confortável. Mais uma vez o Wind 34’superou as expectativas!
Todos os tripulantes tiveram a oportunidade de timonear. Fiz trocas a cada meia hora e o tempo literalmente voôu, assim como o barco.
Lá fora, 20 milhas mais tarde, demos uma cambada e iniciamos o retorno para o canal.
Na volta, com vento ainda contra, mas com ondas mais a favor, o 34’ velejava entre 8,5 e 9 nós. Volta e meia eu pedia para o timoneiro da vez arribar e surfar um pouco. Só não surfamos mais por causa do barlavento. Havíamos colocado algum barlavento na poupança e não dava pra abusar muito!
Chegamos voando na barra e logo o mar desapareceu. A conta do barlavento foi correta e a entrada foi perfeita! Missão cumprida!
Velejamos para dentro  até o início dos molhes do lado da Praia do Cassino. Procurei um lugar para fundear e no caminho achei um trapiche de pescadores.  Ali, aproados ao vento, amarramos um cabo de proa e ficamos... Churrasco na barra!  Comemoramos nossa velejada no mar de Rio Grande! Comemoramos a parceria e a bravura dos tripulantes!
Depois do assado, arrumamos a bagunça e fomos novamente para o mar. Ainda havia tempo para mais uma velejada lá fora. O vento havia diminuído um pouco, mas o mar não.
Golfinhos e mais golfinhos, barriga cheia e a tranqüilidade no ar... Foi assim até o farol! Pegamos algumas ondulações de proa e cambamos para dentro novamente. O dia fechava com chave-de-ouro. Agora é clube!
A noite caia e a lua cheia explodiu no horizonte, linda e radiante.
O vento diminuiu muito e tivemos que ligar o motor.
Barco atracado às 19h. Banho quente, jantar a bordo, conversas, risadas, troca de experiências e cama.
O despertador tocou às 5h30. Domingo seria um dia mais curto e teríamos que sair cedo. Saímos do clube a motor ainda com a noite fechada. Fiz o café com o barco navegando. Nada de perder tempo em terra, já que são duas horas de navegada até o mar.
O frio cortava mais do que no sábado. A sensação térmica era um pouco maior (2 a 3 graus), mas a umidade do ar estava maior e o bicho estava pegando.
Passamos pelo porto velho e junto de nós os primeiros pesqueiros movimentavam-se rumo ao mar.
Tivemos que motorar até lá fora. A vela grande estava toda para cima e a genoa permanecia enrolada. O mar havia baixado para 1,5 metros e o vento era de 4 nós.
Fomos para o lado do Cassino, onde a ondulação entrava paralela aos molhes e depois rumamos para o lado de São José do Norte, até próximos da linha da arrebentação, lá no final dos molhes. No lado de São José a ondulação estava mais comportada em função da proteção dos molhes.
O vento não entrou e por isso voltamos para a barra. Depois que entramos no canal, uma brisa de W apareceu e desligamos o motor. Genoa aberta, corrente a favor e o barco deslizando  calmamente com 2,5 nós. Já não havia mais pressa. Estávamos totalmente dentro da programação e pudemos tomar calmamente um chimarrão com bergamotas. Golfinhos nos acompanhavam novamente e resolvi colocar o bote na água para fazer umas fotos do lado de fora. Só alegria!
Às 11h ligamos o motor e rumamos para o clube. A idéia era pegar a estrada até às 15h.
No rumo de casa e à uma hora de distância começou a fumaça! Não do motor e sim do carvão... Churrasco 02!
Enquanto eu assava, os tripulantes arrumavam todo o barco e suas mochilas. Havíamos colocado tudo para secar ao sol. Adocei o bote e alguns impermeáveis e também os coloquei ao sol.
A carne ficou pronta um pouco antes do Porto Velho e dali em diante diminuímos a velocidade para dar tempo de almoçarmos com calma antes da chegada ao Iate Clube.
Chegamos às 13h30 e logo começamos o desembarque das  nossas coisas.

Na semana que vem, dia 28 de junho, saio de Rio Grande rumo a Porto Alegre com outra turma de alunos, terminando a programação de travessias do primeiro semestre.

O mês de julho será dedicado à manutenção preventiva do barco e em agosto retomaremos o calendário com travessias, cursos e regatas.

Até lá!