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instrutor: Capitão Marcelo Visintainer Lopes
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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Última parte. Chegada em Vitória

Sem a ajuda do motor e da vela grande, rezava para para que o vento forte da frente não acabasse. Entrar em Vitória sem ele poderia se tornar complicado devido ao enorme trânsito de navios e também às restrições à navegação (pedras).
A frente já durava 30 horas e eu sabia que seu fim estava próximo.

Fotos: André Larréa




Navios e mais navios na entrada da baía de Vitória


Esse aí passou pertinho!



Ponte de Vitória (seu nome é Terceira Ponte e separa Vitória de Vila Velha)

Perto das 5h da manhã navegávamos com vento de 15 nós (quase uma calmaria perto de toda aquela tormenta) e o porto de Tubarão, na entrada da baía de Vitória, estava na distância de 2 milhas. Neste pequeno trecho até o porto o vento foi caindo, caindo, até que caiu para uns 5 nós e o barco parou.
Estávamos na cara do gol e o barco parado. Haviam se passado mais de 30 horas de vento duro e na cara e tudo o que queríamos era chegar de uma vez no Iate Clube.
Decidi subir a vela grande pelo amantilho. Abriguei das ondas na popa de um navio e consegui subir a vela. Teoricamente eu poderia ter feito isto antes ou até mesmo com uma adriça de genoa, passando-a por cima da última cruzeta mas o risco era enorme. Eu mesmo teria que subir no mastro e fazer a manobra. Se alguma coisa errada ocorresse comigo, estaria colocando o barco em risco.
Com a vela grande ajudando a velocidade subia de 1,5 milhas/hora para 3 milhas. A maré estava vazando, porém com pouca força já que a amplitude entre a última vazante e a cheia era de apenas 0,6 metros. Mesmo assim, sua influência era de quase 1 nó contra.
Quando o dia amanheceu, o barco praticamente não rendia para frente. Vários navio estavam entrando e saindo do canal. A navegação se tornara muito delicada.
Lembrei que as lanchas da praticagem tinham como porto de acesso o próprio Iate Clube de Vitória. O trânsito de lanchas levando os práticos é enorme. Esperei a primeira lancha da praticagem passar e fiz contato pelo rádio. O piloto informou que eles não poderiam nos rebocar.
Agradeci e pensei: só nos resta velejar até o clube. Eu mau terminei de agradecer quando fomos chamados pelo rádio pelo serviço de rádio de Vitória. Informaram que poderiam nos ajudar com reboque. Deixei claro que entraríamos à vela caso não conseguisse o reboque. Expliquei que estávamos apenas sem motor e que estávamos cansados depois de 30 horas de frente contra mas que o barco tinha condições de velejar.
A conversa pelo rádio terminara e em poucos minutos ouvíamos um pedido de reboque pelo canal 16, com o apelo de CHAMADA GERAL, CHAMADA GERAL, CHAMADA GERAL. Pedido de reboque para a embarcação Planeta Água. O barco encontra-se nas coordenadas tais. Qualquer barco que puder prestar auxílio.... Ouvimos aquilo e achamos meio sensacionalista demais.
Ninguém passou por nós para dar reboque.
Não demorou muito tempo e recebemos uma nova chamada da rádio perguntando se ninguém havia nos prestado auxílio. Eu disse que não ainda. Aí veio a notícia: vamos ajudar vocês. Vou fazer contato com a Marinha. Pensei rápido: a Marinha não dá reboque, ela faz a salvaguarda da vida humana. Resgata tripulantes e passageiros de barcos que estão em perigo no mar. Ela não dá reboque para barcos que estão sem motor. Esta não é a sua função.
Em minutos a Marinha fez contato.
Disseram que iam nos ajudar, embora eu estranhasse bastante.
Começaram com um pequeno interrogatório para preenchimento de ocorrência. Este durou quase meia hora entre as fonias e as repetições nas escutas não entendidas.
Eu estava louco para dizer que estávamos muito próximos do clube, tamanha a demora no preenchimento da tal da ocorrência. Cheguei a me iludir achando que aquilo tudo ia dar em alguma coisa. Doce ilusão!!!
Terminado o relatório, uma pausa de uns 15 minutos ocorreu até o primeiro chamado. Era a rádio de Vitória novamente informando que a Marinha havia feito contato com eles dizendo que não poderiam nos ajudar. O que? Depois disso tudo ainda mandam dizer por um terceiro que não vão nos ajudar!

Reboque do bote do clube

Chegamos ao trapiche do clube com a ajuda do bote do próprio clube. Ele nos puxou por uns 500 metros.
Havíamos navegado à vela até a entrada do clube, superando todos os navios e obstáculos submersos.
Atracamos no Iate Clube de Vitória por volta das 8h da manhã.

Iate Clube de Vitória

Tripulação na chegada em Vitória

Início das fainas de chegada

Arrumamos o barco e fomos para o banho. Saímos do clube para tomar um café da manhã de padaria (daqueles) e quando retornamos ao clube recebi a informação que a Marinha havia estado lá para realizar uma inspeção naval.
O que? Não nos ajudaram, mandaram dizer por terceiros que não iriam estavam impossibilitados de ajudar e ainda vão fazer uma inspeção naval. Isso é demais! Se alguém me contasse essa história eu acharia que é uma piada. Não era piada não! 
Eu e o Carlos fomos até o aeroporto e no caminho recebi um telefonema da Marinha informando que precisavam realizar uma INSPEÇÃO NAVAL.
Passava das 14h quando recebemos então a “VISITA”. Eram os responsáveis pela inspeção. Cumpriam as normas e estavam a serviço das forças armadas. Começa mais um interrogatório. Onde está isto, cadê aquilo, me apresente tal certificado, queremos ver tal coisa, contem para ver se o número está correto. 
Tentei explicar que o barco recém havia passado pela rígida inspeção da Marinha para a disputa da Regata Internacional Recife/Fernando de Noronha mas de nada adiantou.
Fizeram eu assinar um auto de infração no qual o proprietário teria um prazo de 08 dias para apresentação de defesa. 
A inspeção durou pelo menos umas 2 horas. Quase perdemos a tarde. Havia muita coisa ainda para arrumar no barco antes de partirmos de volta para casa.


Praia de Camburi

Leandro e Carlos conseguiram partir de avião de Vitória.
Eu e o Larréa permanecemos arrumando o bvarco até às 20h, quando fomos jantar e preparar nossa ida para a rodoviária. Tivemos que pegar um ônibus para o Rio de Janeiro. A Webjet não trabalha em Vitória e esta era a minha empresa. Larréa ainda não havia comprado a volta e resolveu ir comigo até o Rio e esticar mais alguns dias por lá.
Quando cheguei em Porto Alegre (dois dias depois) entreguei ao Fernando Maciel, proprietário do Planeta Água, o original do auto de ingfração. Fernando preparou uma defesa e encaminhou para a Capitania dos Portos de Vitória.

Resultado da defesa, após decisão da Capitania dos Portos: não havia nada fora de ordem. Estava tudo correto. A defesa demonstrara o equívoco e a gafe cometida pela Capitania.
A grande maioria das coisas que eles pediram eram equipamentos para embarcações acima de 24 metros de comprimento sendo que o planeta água tem apenas 36 pés (10,97m).
Então: para não dizer que não havia nada de errado e cumprindo as normas: faltou o RIPEAM. Durante a inspeção eu não encontrei o livrinho do RIPEAM. Ele estava a bordo dentro da “pasta verde” no armário do beliche de proa.

Este foi o fim de nossa navegada.
Sempre aprendemos muitas coisas com o mar... Esta viagem, em especial, foi maravilhosa, embora cansativa durante as frentes frias. Tudo foi recompensado pelas lembranças dos finais de tarde, pelos saltos das Jubartes, pela na aproximação dos Golfinhos e, principalmente pela parceria dos tripulantes.
Agradeço aos meus parceiros e amigos tripulantes das duas pernas navegadas: Carlos Fiad, Leandro Ávila, André Larréa, Sandro Ribeiro, Gustavo Verzoni e Marcelo Nunes.

Por Marcelo Lopes