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Prof. Marcelo Visintainer Lopes
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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Salvador - Vitória. Parte 2

Quando o vento diminui pelo início da tarde pudemos dar uns mergulhos na popa. Notem que cada um está preso a um cabo de segurança e 1 tripulante está a bordo. Estas são as medidas de segurança que devemos tomar antes de dar um banho destes.
A esta altura estávamos a mais de 50 milhas de Abrolhos. O Horizonte começava a mostrar a chegada da frente e começamos a nos preparar para a sua chegada. Como o vento parou em definitivo (pré-requisito para a entrada da frente), seguimos a motor rumo a Abrolhos.

Fotos: André Larréa




O vento forte e contrário a nós chegou no final da tarde e daí em diante fomos obrigados a navegar enfunando (encher a vela de vento) a vela grande junto com o motor. A genoa já estava bem guardada a esta altura.
A noite foi dura. O vento não baixou de 25 nós, com rajadas de até 35.


O pontinho preto é uma Jubarte

Jubarte dando espetáculo

Mesmo durante os ventos duros as baleias insistiam em dar o ar da graça. Para elas lá em baixo está bem tranquilo. Já aqui fora.... A baleia é aquele pontinho preto ao lado do estai de popa.




As condições de mar pioravam devido à aproximação dos baixios de Abrolhos. O mar estva todo desencontrado.
Vínhamos andando 4 nós para a frente e faltavam umas 15 milhas para abrolhos quando o motor parou de empurrar para a frente. Ele parecia não ter mais força e não passava de 2 mil giros. Com as condições atuais de vento significava que teríamos que navegar mais à vela do que com o próprio motor.
Arribei um pouco mais o barco (afastar a proa do vento) e começamos a empreitada de mais umas 6 horas até nossa chegada em Abrolhos.

Abrolhos







Chegamos em Abrolhos por volta da 14h. Nosso tempo na Ilha era para descanso, fotos e alimentação mas como o motor não estava nos ajudando tínhamos a missão de tentar o reparo. Só haviam dois barcos na Ilha, sendo 1 veleiro (Solaris) e o Titan de uma operadora de mergulho de Caravelas.
Como já tínhamos comunicado a pane motor pelo rádio, já estávamos sendo aguardado pelos dois barcos. O veleiro Solaris prontamente ofereceu ferramentas e se colocou à disposição para qualquer ajuda.
Pelo rádio chamamos o Titan e perguntamos se podiam nos ajudar com o Diesel.
O pessoal começou a dar dicas pelo rádio e quando vimos veio um bote até nós com um mecânico de motor de centro. Só haviam dois barcos na Ilha e num deles havia um mecânico. É muita coincidência, não?
Seu apelido era Digão. Ele comandava o barco da operadora. Largou tudo o que estava fazendo (o barco estava lotado de clientes mergulhadores) e veio nos auxiliar. Essas coisas costumam acontecer no mar e contando não se acredita. Digão passou toda a tarde a bordo e fez tudo o que estva ao seu alcançe.
O tanque de diesel estava com mais água salgada do que diesel propriamente dito. Descobrimos que o problema ocorreu no abastecimento em Salvador. Tinha como prova uma bambona amarrada na borda, abastecida no mesmo posto flutuante da BR. Olhamos a bambona e realamente constatamos que havia muito mais água do mar do que diesel na mistura.
Esvaziamos o tanque, esvaziamos os filtros, substituimos todo o diesel do sistema, sangramos a bomba e os bicos injetores e colocamos diesel novo e filtrado cedido pelo Digão. Todo o serviço era feito pelo Digão, eu só o auxiliava quando ele pedia alguma coisa. O cara entendia muito mesmo de motor.
Colocamos o motor para funcionar, levantamos a âncora e fomos dar uma volta com combustível passando por fora da bomba de combustível.
Não resolveu. Digão jogou a toalha após umas 3 horas e disse que teríamos que ir para Caravelas. Lá existe assistência técnica para o motor.
Enquanto isso o Veleiro Solaris fazia contato perguntando como estavam indo as coisas.
Pedimos uma previsão do tempo para eles e nos foi informado da aproximação da segunda frente fria.
Ela já estava próxima a Vitória.
Decidimos partir à vela. Informamos o Solaris que partiríamos em seguida. Agradecemos a ajuda do amigo Digão, secamos a água debaixo dos paineiros e seguimos para Vitória.


Por Marcelo Lopes 













Salvador - Vitória. Parte 1

Saimos de Salvador às 10h da manhã do dia 08 de outubro. Nosso destino Vitória, via Abrolhos.
Pegamos a previsão no dia anterior e a tínhamos vento a favor nas próximas 24 horas.
Ainda no TENAB, conversei com o Paulinho Mordente (gaúcho amigo nosso que estava levando um outro Delta 36 para Ilhabela) e combinamos de sair mais ou menos juntos. Ele mesmo tirou as últimas previsões e após uma breve conversa decidimos sair. Ele faz translado de barcos a mais de 25 anos e está acostumado com as condições severas do mar. Prefere, assim como todos os velejadores, os ventos a favor e sabia, assim como eu, que teríamos só 1 dia nestas condições.
Paulo optou por navegar mais aterrado, enquanto nós rumavámos mais para dentro, visando Abrolhos. A idéia dele era procurar abrigo da frente mais próximo de Cabrália. A nossa idéia era conseguir chegar em Abrolhos. Lá também tem abrigo do quadrante sul.
A previsão marcava a entrada de duas frentes frias de sudoeste. Sabíamos que o contra-vento iria ser pegado e nos preparamos psicologicamente para isso.

Começamos a navegar e subimos a vela grande logo na saída dos molhes e começamos a velejar junto com o motor. O vento já estava próximo dos 12 nós. A previsão era de 15 a 20 nós de nordeste.
Estávamos no canal, já próximos à saída da Baía de Todos os Santos quando abrimos a genoa do enrolador. Ao abrir a vela notei um rasgo na valuma (parte de trás da vela) de mais ou menos 01 metro na vertical.
Imediatamente virei um 180 e retornei para o abrigo da baía para iniciarmos a troca da vela.
Tínhamos no paiol uma genoa reserva de Kevlar. A vela era nova demais, parecia que ainda não havia velejado. O shape dela era infinitamente superior ao da genoa rasgada. Uma vela para contra-vento e vento forte, exatamente o vento que aguardávamos para as próximas horas. Pensei comigo: "Jesus protege os inocentes". Não seria nada bom aquela vela ter rasgado no meio de um temporal. Rasgou antes de entrar o vento forte e possibilitou uma troca tranquila em águas abrigadas.
Partimos então para Abrolhos, nosso primeiro destino antes de Vitória.
A navegada foi de popa com asa de pomba. O barco navegava com velocidades superiores a 8 nós, o que é bastante bom para um veleiro deste porte.
Navegamos tranquilos durante o dia inteiro e a noite inteira. Avistamos muitas baleias neste primeiro dia. O astral era muito bom. No fundo, no fundo eu sabia que esta tranquilidade não ia durar muito tempo.
Mantivemos contato como o Mordente quase todo o tempo. A bordo do barco dele estavam Plínio Fasolo (POA) e Sérgio (SP). Eles revezavam a fonia do rádio conosco. Até umas 20 milhas de Abrolhos, quando perdemos contato. A última informação é que eles estavam buscando abrigo próximos a Caravelas. Neste último contato informamos que iríamos encarar o contra-vento até Abrolhos. Boa sorte para todos!!!

Os novos tripulantes Leandro (E) e André (D) no alto do elevador Lacerda

Fotos: André Larréa

Trapiche do TENAB

Salvador ficando para trás





Jubarte jogando água para cima

Acima o avistamento das primeiras baleias. Foi logo após a nossa saída de Salvador. Este foi o primeiro dos muitos avistamentos que fizemos.
Abaixo o primeiro por-do-sol no mar (dia 08 de outubro). Embora o sol se ponnha no oeste, quando estamos afastados da costa ele se pôe no mar. O fenômeno se dá pela curvatura que a Terra apresenta. Para quem está no mar é a mesma sensação de ver o por-do-sol na costa oeste da América do Sul.




Por Marcelo Lopes



Chegada em Salvador

Logo em seguida do final do avistamento das Jubartes prosseguimos nossa navegada rumo a Salvador.
Estávamos a um punhado de milhas do nosso destino. O vento era pouco e o motor teve que funcionar novamente, ajudando as velas.
A 02 milhas do Farol da Barra o vento nordeste começou a soprar com boa intensidade, possibilitando uma bela navegada de popa em asa de pomba (uma vela para cada lado).
Quando contornamos o farol o vento exigiu mudança no caçado das velas. Já era contra-vento e o movimento de navios no canal era enorme.
Entramos na Baía de Todos os Santos velejando bem e fomos à vela até os molhes que dão acesso ao porto. Dali em diante ligamos o motor e baixamos as velas. Chegamos ao nosso destino!
Virando os molhes avistamos o posto de combustível. Há, que alívio. O diesel estava no final. Abastecemos 140 litros de óleo, sendo que o tanque tinha capacidade para 150 litros. Dali fomos para o TENAB (Terminal Náutico da Bahia), onde faríamos o desembarque dos tripulantes antigos, o embarque dos dois tripulantes novos e o abastecimento de água e gêneros,  preparando o barco para o próximo destino (Vitória).
Chegamos ao TENAB às 14horas.
Nossa previão inicial era chegar ás 13h. Erro de 1 hora num cálculo iniciado 96 horas antes.
O combustível também foi super administrado. Sabia o quanto e como gastá-lo. Ainda sobrou 10 litros que dava para navegar por mais umas 04 horas a motor. Tudo tem que se gerido e pensado para não faltar, assim como a água potável e comida. Esquecer de algum detalhe deste tipo pode ser bastante complicado> Imaginem só faltar comida, faltar água ou combustível... Que tragédia não?

Salvador ao fundo




Abastecimento de diesel no posto flutuante

Chegada no TENAB com elevador Lacerda ao fundo


Forte de São Marcelo






Piso superior do Mercado Modelo

E assim termina esta etapa...

Nos encontramos no final de tarde no piso superior do Mercado Modelo. O mercado fica bem em frente ao TENAB, onde o barco ficou atracado. Lá de cima dava pra vê-lo!
A essas alturas já tinham chegado os dois novos tripulantes que iriam até Vitória seguindo viagem comigo e com o Carlos Fiad. Eram leandro Ávila e André Larréa.
Confraternizamos todos juntos o final dessa pequena história de mar.
Desembarcaram meus alunos, amigos e tripulantes. Marcelo Nunes, Sandro Ribeiro e Gustavo Verzoni. 
Passamos bons momentos a bordo. Superamos nossos limites e fizemos de tudo para passar estes dias em harmonia. 
Dificuldades de convivência são normais a bordo, principalmente quando se fala em aceitação à hierarquia. Talvez esta seja a parte mais difícil para a maioria das pessoas que vão para o mar pela primeira vez.
O barco possui regras de segurança e de convívio. Não existe espaço para erros. O mar não os admite.
As ordens tem que ser cumpridas. Não é uma questão de saber mais ou gostar de mandar. A questão é saber o que fazer, quando fazer e como fazer. Muitas pessoas, mesmo sem experiências anteriores de mar, trazem estas noções na sua bagagem de vida. Estas tem mais facilidade para a convivência e para o trabalho a bordo. As que ainda não possuem, acabam por aprender na necessidade.
O pessoal se puxou e superou suas limitações. Navegamos sem parar nenhum minuto (só nas calmarias para o banho). Navegávamos dia e noite e na maior parte do trecho em profundidades superiores a 2 mil metros. Não havia visibilidade da costa, com exceção de curtos espaços de tempo.
A comunicação era quase inexistente. O rádio só funcionava só quando estávamos próximos de algum barco ou de terra.
Foram 04 dias que valeram tranquilamente por uns 10, tamanha intensidade dos momentos a bordo. 
Demos boas risadas e aprendemos muitas lições com o mar.
Obrigado meus queridos!


Por Marcelo Lopes




sábado, 23 de outubro de 2010

Recife - Salvador. Parte 4 - as baleias Jubarte

Depois que avistamos os golfinhos o vento começou a ajudar um pouco mais em conseguimos colocar o barco para navegar com vento de popa.
Abrimos a vela grande e colocamos a genoa no pau de spi.

Marcelo Nunes armando o pau de spi

Genoa e balão armados

Passamos por Aracajú e avistamos várias plataformas de petróleo. O local é cheio destas estruturas. É a pujança do petróleo e gás natural. Dá gosto de ver! A navegação nos arredores de Aracajú exige cuidados especiais. não é um lugar fácil de se navegar, ainda mais quando se anda perto da costa.
Vínhamos a mais de 20 milhas da costa bem tranquilos. Mantínhamos uma boa distância da costa sempre na expectativa do vento torçer mais de proa. Fazíamos nossa poupança de barlavento.
Quando o dia 07 amanheceu começamos a ver terra. Já estávamos avistando os arredores de Salvador.
A sensação de estar próximo do primeiro destino foi muito boa, ainda mais que havia combinado com os novos tripulantes o embarque no dia 07 em Salvador. Estava dando tudo certo! Conseguimos manter a média de 6 nós e a previsão de chegada é para o meio-dia.
O pessoal começou a relaxar um pouco mais. Eu já ia pedir para que fossem arrumando suas malas para o desembarque quando as baleias Jubarte começaram a dar um show na bochecha de bombordo. A distância aproximada era de 2 milhas. Segui a motor tentando uma aproximação para filmagens e fotos e a mais ou menos meia milha desliguei o motor e seguimos à vela sem barulho algum. Aproximamos a uma distância seguara (300m) e começamos a sessão.

O show das Jubartes





Elas estavam em 03, sendo o casal e um filhote. Permaneceram ao lado do barco por mais de 10 minutos e então se afastaram.
Arribei o barco e rumei para nosso waypoint próximo do Farol da Barra. Elas desapareceram. Foram embora. Foi fantástico, todos encantados, cenas que jamais sairão da memória... OPA, ESPERA AÍ!!!
O que é aquilo aqui na popa?
Era a maior das baleias que talvez tenha vindo dar uma conferida e para nós serviu de despedida.
Ela saiu quase inteira para fora dágua a não mais de 30 metros da popa. Devia ter pelo menos o comprimento de um ônibus.
Como estávamos despreparados com as máquinas ninguém conseguiu registrar. Registramos em nossa memórias, o que já é algo muito reconfortante...Inisquecível!!!


Chegando em Salvador


Farol da barra

 

Por Marcelo Lopes